Técnica de Schultz adaptada ao relaxamento ocular
É um exercício excelente para todos os que queiram reduzir o seu estado de stress funcional, um desafio nos dias de hoje. É especialmente importante quando o stress começa a ter impacto na saúde e bem-estar ocular.
O treino de Schultz é uma técnica de relaxamento psicofisiológico criado pelo psiquiatra e psicoterapeuta Johannes Schultz e está baseada em ferramentas neurocientíficas como:
- Auto-sugestão
- Diminuição do sistema nervoso simpático (responsável pelo estado de alerta ou vigilância)
- Ativação do sistema nervoso parassimpático (responsável pelo estado de repouso)
- Relaxamento do tónus muscular e vegetativo
🎧 Relaxação ocular, corpo e mente
Qualquer pessoa, independentemente da idade, pode aplicar a técnica como autotratamento, pela segurança, facilidade e pela ausência de efeitos adversos.
Embora seja uma ferramenta de autorregulação do sistema nervoso autónomo, a praticabilidade na optometria comportamental apoia a terapia visual e complementa o tratamento, acelerando os resultados.
A nivel visual é especialmente útil em:
- Espasmos acomodativos
- Inflexibilidade acomodativa
- Atrasos acomodativos
- Pseudomiopia
- Miopia, astigmatismo e presbiopia
- Síndrome visual do computador
- Adaptação difícil a novas lentes
- Desconforto com progressivos
- Hipersensibilidade visual
- Dificuldade em alternar perto/longe
- Endodesvios
- Queixas de cansaço visual
- Crianças que se aproximam demasiado do livro
Entender a base científica do treino
O sistema motor ocular sofre influência do sistema nervoso autónomo, o sistema simpático e o parassimpático. Estes dois sistemas são responsáveis por regular os orgãos internos de forma automática e involuntária. Em situação de perigo o corpo necessita de estar num estado de alerta e de mais energia para reagir numa situação de luta ou fuga. Depois de ter passado o perigo, o corpo necessita de voltar ao estado de equilíbrio (homeostase) e para isso necessita de ativar o sistema nervoso parassimpático para acalmar e ralentar as funções anteriormente ativadas pelo sistema simpático. Assim, o corpo recupera a energia e o equilíbrio, proporcionando bem-estar. O stress é, portanto, um mecanismo normal e necessário porque ativa a atenção, protege, ajuda no foco, na aprendizagem e a ver. Este processo de ativação e retorno ao equilíbrio é o que chamamos de stress fisiológico. Assim, o stress é um fenómeno normal e necessário. O problema surge quando o estado de alerta se mantém por períodos prolongados, sem tempo suficiente para recuperação. Nestas situações, o sistema nervoso autónomo perde a homeostase e o corpo permanece em modo de vigilância constante.
A nível corporal, isto traduz-se em tensão muscular persistente, respiração mais superficial e dificuldade em relaxar. A nível visual, o sistema motor ocular tende a manter a acomodação e a convergência ativadas, mesmo quando já não são necessárias, levando a esforço excessivo, dor de cabeça, dificuldade em manter a visão nítida ao longe, fadiga visual e desconforto. Assim, o stress deixa de ser adaptativo e passa a interferir com o funcionamento visual e com o bem-estar geral.
Relação entre o stress e a visão
O sistema motor ocular encontra-se intimamente ligado ao sistema nervoso autónomo, pelo que o seu funcionamento reflete o estado geral de ativação do organismo. Quando o corpo permanece num estado de vigilância constante, o sistema visual é diretamente afetado. A nível ocular, observa-se frequentemente a manutenção excessiva da acomodação e da convergência, dificuldade em relaxar o foco após tarefas de perto, fadiga visual, flutuações da visão ao longe e desconforto ocular. Estas alterações não resultam de patologia estrutural, mas de uma perda de flexibilidade funcional do sistema visual associada à ativação persistente do sistema simpático.
É neste contexto que a técnica de autorregulação de Schultz, ganha relevância clínica. Esta técnica, amplamente descrita por Johannes Schultz e aplicada ao contexto corporal e ocular por Léopold Busquet, baseia-se na autossugestão de sensações de peso e calor associadas a uma respiração calma. A escolha destas sensações não é simbólica, mas fisiológica: a perceção de peso está associada à diminuição do tónus muscular, enquanto a sensação de calor resulta do aumento da vasodilatação periférica, ambos sinais característicos da ativação do sistema nervoso parassimpático.
Quando a pessoa presta atenção a sensações como o peso e o calor, o corpo interpreta essa informação como um sinal de calma e segurança. Isto ajuda o sistema nervoso a sair do estado de alerta constante e a abrandar. Como consequência, a tensão geral do corpo diminui, incluindo o sistema visual, como a acomodação e a convergência.
Este processo não obriga os olhos a relaxar à força. Pelo contrário, cria um ambiente de tranquilidade que permite ao sistema visual fazer aquilo que sabe fazer naturalmente: trabalhar quando é preciso e descansar quando o esforço termina. Desta forma, os olhos recuperam a capacidade de alternar entre foco e descanso, reduzindo o cansaço e o desconforto visual.
Ao nível visual, esta técnica pode ser particularmente útil em disfunções visuais funcionais associadas a stress, como fadiga visual, inflexibilidade acomodativa, dificuldade na mudança de foco entre perto e longe e instabilidade de convergência. Embora não substitua a terapia visual específica, o treino autógeno atua como um facilitador, preparando o sistema nervoso para responder de forma mais eficiente aos exercícios visuais e promovendo homeostase.
Em síntese, o stress torna-se prejudicial quando o organismo perde a capacidade de recuperar. A auto-sugestão de peso e calor atua como um sinal interno de segurança que ajuda o sistema nervoso autónomo a sair do modo de alerta. Ao restaurar este equilíbrio, a técnica de Schultz contribui para a redução da tensão funcional subjacente a muitas queixas visuais, favorecendo um funcionamento visual mais flexível, confortável e eficiente
Adicionar comentário
Comentários