Visão e Emoção: Dois Mundos Que Vivem Ligados

Publicado em 19 de janeiro de 2026 às 12:28

Visão e Emoção: Dois Mundos Que Vivem Ligados

A aprendizagem é otimizada quando existe uma congruência entre os sentimentos internos e as percepções externas. Quando ocorre uma falha na visão, esse equilíbrio é comprometido, resultando em uma crise de identidade. A instabilidade emocional interfere diretamente na capacidade visual, o que pode levar a uma série de dificuldades, tais como: falta de atenção, erros de leitura, ritmo de leitura inadequado, dores de cabeça, frustrações, inquietude física ou comportamentos reativos, como o de se comportar de maneira a atrair a atenção dos colegas.

 

A visão e a emoção encontram-se intrinsecamente interligadas, com uma relação muito mais complexa do que se acreditava anteriormente. Durante muitas décadas, a visão foi considerada meramente um processo mecânico: a luz entra, uma imagem é formada e o cérebro a interpreta. No entanto, atualmente, compreendemos que essa perspectiva é apenas uma fração do panorama total. A visão é um sistema que abrange não apenas a interpretação visual, mas também componentes emocionais, cognitivos e corporais. Através da visão, organizamos nosso espaço, antecipamos o movimento, regulamos a posição do corpo e construímos uma parte fundamental de nossa identidade. Quando a visão é estável, o ambiente parece seguro e previsível. Em contrapartida, quando a visão é instável, o mundo torna-se confuso, ameaçador ou difícil de compreender, impactando diretamente no nosso estado emocional.

A optometria comportamental, conforme delineada por Joel Warshowsky, revela que muitas dificuldades emocionais e comportamentais observadas em crianças e jovens não surgem de forma espontânea. Frequentemente, essas dificuldades têm origem em um funcionamento visual deficiente. Um estudante que apresenta dificuldades em focar, que vê imagens duplicadas, que perde a linha ao ler ou que se cansa rapidamente não concebe isso como uma dificuldade visual. Em vez disso, interpreta como uma limitação intrínseca. Essa percepção pode levá-lo a se considerar menos capaz, menos inteligente ou menos competente do que os seus pares. É nesse contexto que surge o que Warshowsky denomina de síndrome de fracasso: a criança falha repetidamente, não compreende o motivo das suas dificuldades e, consequentemente, conclui que o problema reside em si mesma. Cada erro diminui o seu "teto interno", semelhante a um teto falso que desce continuamente, restringindo o espaço onde a criança acredita poder existir. Embora o potencial real permaneça oculto, fica mascarado por uma percepção distorcida da sua própria identidade.

A neurociência reforça essa conexão. O sistema visual está profundamente interligado ao sistema nervoso autónomo, que é o responsável pelas respostas ao stress. Quando uma criança experimenta ansiedade, tristeza ou insegurança, a visão adapta-se unicamente para a sobrevivência, em vez de para a aprendizagem. Neste contexto, a convergência pode falhar, o foco pode oscilar e a atenção visual pode dispersar-se. Isso implica que as emoções influenciam a visão. Contudo, a relação também é recíproca: quando a visão é instável, o corpo entra em tensão, a mente perde sua organização e os indivíduos mais jovens sentem-se inseguros. Assim, a visão e a emoção interagem de maneira a criar um ciclo que pode ser tanto positivo quanto negativo.

Joel Warshowsky, optometrista comportamental infantil, descreve casos em que a instabilidade emocional "desalinha" fisicamente os olhos documentando situações em que estabilizar o sistema visual resulta num maior controlo emocional. 

Jean Piaget, um dos maiores psicólogos do desenvolvimento infantil, já elucidou essa relação ao discutir o conceito de "equilíbrio": aprendemos de forma mais eficaz quando o que sentimos internamente corresponde ao que percebemos externamente. Quando a visão falha, esse equilíbrio é comprometido. A criança ou jovem passa a não confiar nas suas percepções visuais e, ao não confiar no que vê, também perde a confiança em si mesmo. Para lidar com essa vulnerabilidade, pode recorrer à invenção, adivinhação, compensação ou evita as tarefas como tentativas de criar uma coerência interna num mundo externo caótico. Muitas crianças, ao ler, acrescentam, trocam as letras ou omitem palavras não por porque não saibam, mas pela necessidade de construir uma realidade visual que ressoe com a sua experiência.

Portanto a visão influencia a emoção e, reciprocamente, a emoção influencia a visão. Este processo opera em ambas as direções. Quando a visão é eficiente, o corpo relaxa, a mente organiza-se e o estudante experimenta um senso de competência. Por outro lado, quando a visão é ineficaz, a criança ou jovem evita tarefas, vivencia frustrações, estabelece compensações e desenvolve temores em relação ao fracasso. A sua identidade torna-se marcada por um "teto falso" que limita seu potencial.

Para os pais, educadores e terapeutas, essa compreensão implica que muitos comportamentos que podem ser interpretados como desmotivação, preguiça ou imaturidade podem, na verdade, representar um sistema visual que luta para se organizar. Sintomas como dores de cabeça, fadiga rápida, erros frequentes de leitura, ansiedade em tarefas visuais, escapar aos deveres e comportamentos de "palhaço da turma" podem ser manifestações de um sistema visual sobrecarregado, assim como também podem refletir dificuldades emocionais que, por sua vez, alteram a função visual.

É animador observar que, ao auxiliar um estudante a melhorar a sua visão, não estamos apenas a desenvolver a sua capacidade de aprendizagem. Estamos, de fato, a devolver-lhe a confiança, reduzindo a ansiedade, reorganizando a postura física e fortalecendo a sua identidade.

Para concluir a visão é uma porta para o mundo, assim como uma porta para o interior de nós mesmos. Ao estabilizar a visão, criamos um espaço onde nos podemos redescobrir a nós mesmos, recuperar o nosso potencial genuíno e voltar a acreditar nas nossas capacidades.

Ver melhor é sentir melhor. E sentir melhor é ver melhor. A visão e a emoção não existem como sistemas isolados; representam, na verdade, duas facetas de uma mesma experiência humana.

 

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