Como ajudar as crianças que leem devagar

Publicado em 23 de junho de 2026 às 12:57

A leitura é um processo complexo que exige uma intervenção correta e precisa dos movimentos oculares chamados sacádicos e de fixação. Ao ler, os olhos realizam pequenos saltos muito rápidos que servem para trazer cada nova palavra para a zona retiniana de visão nítida, a fóvea

Os movimentos sacádicos permitem que ocorra a fixação, que é o momento verdadeiramente responsável pela leitura. É durante a fixação que o cérebro recebe e processa toda a informação visual: analisa a letra ou o ditongo, reconhece a palavra e acede ao seu significado.

Os olhos não aterram ao acaso, mas sim num ponto preferencial, quase sempre ligeiramente à esquerda do centro da palavra. A fixação acompanha o sacádico (a aterragem). A média do local onde as fixações são mais frequentes ao longo de muitas leituras, chama‑se PVL (Preferred Viewing Location). Vários estudos mostram que aterrar ligeiramente à esquerda é vantajoso para processar a palavra com facilidade. Isto porque a leitura realiza-se da esquerda para a direita, as primeiras letras são mais informativas e a experiência da leitura cria o hábito ou a tendência de olhar um pouco mais para a direita. 

Enquanto que o PVL é a média do ponto onde as fixações mais frequentemente começam, o ponto inicial ILP ( initial landing position) é ponto exato onde o olho aterra numa palavra num salto específico. Ou seja, cada vez que faz um sacádico, o ponto onde o olho pára e começa a fixar é o ILP. Nos leitores fluentes, o ILP costuma coincidir com o PVL, porque os sacádicos são mais precisos. Contudo há fatores visuais que alteram o ILP como o tamanho da palvra, o espaçamento e a saliência visual.

Um leitor fluente o ILP aproxima-se do PVL, a janela percetiva é ampla, consegue processar várias letras ao mesmo tempo, já usa a rota lexical (reconhece a palavra como um todo) e já não precisa de ler letra a letra. Quando estão reunidas estas habilidades o leitor pode ler mais de 4 palavras por segundo.

Quando a performance dos sacádicos e das fixações é boa, a leitura torna‑se fluente, rápida e compreensiva.

Duas formas de ler palavras

Rota Sublexical

Os leitores fracos ou iniciantes usam esta via. A leitura é serial, letra a letra. O olho fixa em pontos muito à esquerda da palavra (ILPs iniciais) e vai avançando devagar. O processamento fonológico é mais lento, traduzindo cada letra ou sílaba em som.  A memória de trabalho fica sobrecarregada podendo falhar a compreensão.

Rota Lexical

É usada pelos leitores fluentes. A leitura é global e automática. O olho aterra perto do centro da palavra (ILP ≈ PVL) e consegue processar várias letras em paralelo. O leitor, reconhece a palavra e dá-lhe imediatamente um significado, permitindo-lhe ler rápido e com pouco esforço cognitivo.

Leitores Fracos e Disléxicos

Vários estudos têm demonstrado que os leitores com dificuldades e disléxicos têm sacádicos mais curtos, mais e maiores fixações, e uma maior frequência de regressões, padrão típico parecido aos leitores iniciantes. Verificou-se também que nos disléxicos, o ILP é próximo do inicio das palavras reduzindo a informação visual e, portanto, a janela percetiva. A ineficiência dos movimentos oculomotores pelas fixações mais curtas e regressões na mesma palavra,  produz uma falha no acesso lexical (significado).

 

Nem todos os disléxicos apresentam défices oculomotores. No entanto, existe um subgrupo que pode ter problemas no processamento visual, sobretudo no sistema visuo‑atencional. Estes problemas interagem com os défices fonológicos e ortográficos já existentes, tornando a leitura ainda mais difícil. A origem provável destes défices está na dificuldade de processamento visual, em particular na capacidade de focar a atenção de forma precisa e estreita, o que compromete o planeamento eficaz dos sacádicos.

Quando o foco atencional não é bem regulado, os olhos podem aterrar em posições pouco eficientes dentro da palavra, recolhendo menos informação útil e obrigando a múltiplas fixações corretivas. Isto reduz a fluência e aumenta o esforço cognitivo, agravando o desempenho de leitura. Embora subtis e difíceis de medir, estes défices visuo‑atencionais podem constituir um fator secundário que se soma às dificuldades linguísticas, contribuindo para um quadro de leitura comprometida.

Apesar disso, há espaço para intervenção. Programas de treino oculomotor, concebidos para melhorar a precisão dos movimentos dos olhos e a estabilidade das fixações, podem ajudar a reduzir o impacto destes défices. Ao aumentar a eficiência do controlo ocular, é possível facilitar o acesso lexical e tornar a leitura mais fluente, mesmo em crianças que apresentam estas dificuldades adicionais.

 Não basta treinar apenas a linguagem oral e fonológica, é preciso também treinar o sistema visuo‑atencional e os movimentos oculares

Atualmente, quando se fala em avaliação e intervenção nas crianças com dificuldades de leitura, a maior parte das ferramentas e programas está centrada nas competências linguísticas. O foco principal tem sido a aquisição fonológica, ou seja, ensinar a criança a reconhecer sons, sílabas e padrões da língua oral e escrita. Por isso, muitas intervenções trabalham sobretudo com fonética, ortografia e morfologia, tentando fortalecer a base linguística da leitura.

No entanto, várias linhas de investigação mostram que o enfoque exclusivo nas competências fonológicas é limitado. Há múltiplos estudos que demonstram que treinar o sistema visuo‑atencional e oculomotor também melhora a leitura em crianças com dislexia ou dificuldades de aprendizagem. Avaliar indicadores como os sacádicos e as fixações, permite perceber se os movimentos oculares estão a tornar a leitura eficiente ou não. 

Assim, a ideia é que as ferramentas de reabilitação e educação não fiquem apenas centradas na linguagem oral e fonológica, mas passem também a incluir treino oculomotor e visuo‑atencional. Com esta abordagem integrada, mais crianças com dificuldades de leitura poderão alcançar proficiência na linguagem escrita, tornando a leitura mais rápida, fluente e menos exigente.

Um dos estudos realizados demonstrou que uma terapia baseada nos movimentos oculares foi eficaz no auxílio a pacientes com dislexia central. Observou-se uma melhoria significativa no tempo total de leitura, na quantidade de fixações necessárias e na precisão da leitura. 

Vários outros estudos evidenciam a eficácia do treinamento oculomotor, não apenas em crianças com dificuldades de aprendizagem, mas também em estudantes que não apresentam diagnóstico. Os resultados indicam melhorias não apenas na fluência, mas também na compreensão da leitura.

Os movimentos oculares podem ser treinados e numerosos estudos relatam resultados muito positivos após esse treino. Em pacientes com dislexia central, verificou‑se que o treino visual estimulou tanto os procedimentos lexicais como os segmentais de leitura, levando a melhorias significativas no tempo total de leitura, no número de fixações necessárias e na precisão.

Estudos recentes corroboram a eficácia do treinamento oculomotor como uma intervenção cognitiva, evidenciando benefícios não apenas em crianças com dificuldades de aprendizagem, mas também em crianças em idade escolar com desenvolvimento típico. Nesses casos, o treinamento contribuiu para avanços significativos na fluência e na compreensão da leitura.

Um exemplo particularmente relevante é o rigoroso treinamento sacádico. A referência demonstrou que a prática intensiva dos sacádicos resultou num aumento da fluência em crianças pequenas. Este achado confirma que, assim como qualquer outra tarefa motora, os movimentos oculares podem ser aprimorados por meio de prática repetida e direcionada, culminando em melhorias substanciais no desempenho da leitura.

 

 

 

Curiosidade

Cada fixação dura, em média, 200 a 250 milissegundos em leitores fluentes. As crianças com dificuldades oculomotoras ou visuo‑atencionais podem durar 400ms ou mais.